quarta-feira, 13 de julho de 2016

O que fazer se o mundo acabar?




Este é o ponto de partida, sob a ótica de uma equipe de jornalistas, da peça Tragédia: uma tragédia, em cartaz de 21 a 24 de julho, na Caixa Cultural, em Curitiba

Após uma tarde em que o sol se pôs para sempre, aparentemente, uma emissora de televisão envia repórteres às ruas para esclarecer o fato apocalíptico. No meio da noite que parece ser eterna, os jornalistas enfrentam seus medos e deixam temores pessoais falarem mais alto do que o dever de explicar o que parece ser inexplicável.

Este é o enredo da peça Tragédia: uma tragédia, texto do dramaturgo norte-americano Will Eno, com direção de Carolina Mendonça, que estará em cartaz de 21 a 24 de julho, na Caixa Cultural, em Curitiba. No elenco estão os atores Amanda Lyra, Carolina Bianchi, Rodrigo Bolzan, Rodrigo Andreolli e Zemannuel Piñero.

O assunto é inquietante, mas a dramaturgia forte de Eno chamou a atenção da diretora. O âncora do telejornal e três repórteres permanecem no ar tentando explicar o inexplicável. Conforme a noite avança e a possibilidade do fim do mundo ser real, os medos e anseios pessoais dos jornalistas tomam conta da transmissão. O texto, no entanto, não deixa claro se a luz de fato não voltará ou se o mundo está vivenciando apenas o cíclico, uma noite como outra qualquer.

“O que esperar quando a humanidade se depara com o caos, o fim de todas as referências conhecidas? Uma equipe de jornalistas é capaz de identificar isto?”, questiona duplamente Carolina.

Segundo o autor, Will Eno, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, “porque temos medo, precisamos ter a sensação de que entendemos e controlamos todas as coisas. A peça sugere que, às vezes, talvez seja melhor apenas olhar e sentir do que pensar e falar.”

Tragédia: uma tragédia começou a ser produzida no Brasil em 2013 e teve a primeira montagem em 2014, no Sesc Pompéia (SP), durante o conturbado período eleitoral daquele ano. A peça volta a ser apresentada em 2016 em Curitiba, Brasília e Rio de Janeiro no momento pelo qual o Brasil também enfrenta problemas políticos, econômicos e sociais. “Como imaginar o futuro quando não se sabe falar do presente? Às vezes é preciso ter coragem de olhar para a escuridão e aceitar que existem coisas sobre as quais nós não sabemos ainda. Talvez a peça seja uma tentativa de observar e escutar o que está ao nosso redor e isto, em si, já é uma ação”, afirma.

Estudo - para ampliar a imagem do comportamento profissional de jornalistas, personagens da trama, a equipe assistiu a várias matérias, principalmente, de situações extremas, como a de 11 de setembro, quando, inicialmente, ninguém sabia a dimensão dos fatos. “Observamos as reações de muitos jornalistas em coberturas de fatos extremos. Em muitos casos foi difícil para eles manter a distância profissional. Em diferentes momentos, o desconhecido afeta a todos”.

Se coberturas jornalísticas muitas vezes tomam ares de espetáculos (quanto maior a tragédia mais apelativa a apresentação dos fatos pode ser), como agir quando a dissolução do mundo como conhecemos se dá aos poucos de maneira quase imperceptível. “É importante olhar para o que não se compreende. Desde tempos remotos o ser humano tem medo do escuro, mas há beleza também na escuridão. Como lidar com o desconhecido?”, indaga a diretora.

O que começa como crítica à cobertura jornalística, ao longo do texto se transforma em análise sobre como o ser humano testemunha catástrofes e o que o faz seguir vivendo em meio à tragédia, no escuro.

Diretora - Carolina Mendonça, 31 anos, é formada em Direção Teatral pela ECA-USP e cursando o mestrado de Coreografia e Performance na Universidade de Giessen na Alemanha.

Ela transita entre a dança, teatro e performance. Foi artista residente e propositora do projeto LOTE edições #1 #2 e #3, coordenado por Cristian Duarte e contemplado três vezes pelo Programa de Fomento a Dança da Cidade de São Paulo.

Fez parte do programa Panorama Sur (Buenos Aires - 2015) Theatertreffen (Berlin - 2015) e DanceWEB (Viena – 2014). Trabalhou como assistente nos espetáculos Batucada, de Marcelo Evelin, uma co-produção do Kunsten Festival des Arts em Bruxelas (2014), apresentado em Frankfurt, Teresina, São Luís e no Festival Internacional de Curitiba; na Ópera Orfeu e Eurídice, direção de Antônio Araújo

e Alejandro Ahmed, realizada na Praça das Artes do Teatro Municipal (2012); e no espetáculo “Melancolia y Manifestaciones”, da diretora argentina Lola Arias, em Buenos Aires (2011).

Entre seus trabalhos destacam-se “Falling” (2016), que estreou no Festival Theatermaschine, em Giessen, e Carolina cumpriu temporada no Mousonturm, em Frankfurt, ambos na Alemanha.

“Tragédia: Uma Tragédia” fez temporada no Sesc Pompéia (2014) e em 2016 circula pela Caixa Cultural em Curitiba, Brasília e Rio de Janeiro.

Também estão no currículo da diretora: “Público”, performance para o projeto Programas Públicos do 18 Festival Videobrasil (2014); “Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial”, contemplada pelo Prêmio Primeiras Obras do CCJ, apresentada na Mostra Sesc de Artes 2012 e contemplada pelo Prêmio Myrian Muniz de circulação por Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro; “Valparaiso, um esboço”, na mostra Novos Diretores do Teatro da Vertigem (2011) e a performance “Muro em Diagonal - Metáforas Espaciais com Experiência Concreta, criada com Bruno Freire para a VERBO 09, na Galeria Vermelho.



Ficha técnica

Dramaturgia: Will Eno. Tradução: Amanda Lyra. Direção: Carolina Mendonça. Elenco: Amanda Lyra, Carolina Bianchi, Zemannuel Piñero, Rodrigo Bolzan e Rodrigo Andreolli. Cenário: Theo Craveiro. Iluminação: Lucia Koch e Carolina Mendonça. Operação de luz: Liça Bastos. Som: Miguel Caldas. Figurino: Daniel Lie. Produção: Aura Cunha e Ludmilla Picosque. Fotos Cris Lyra. Produção local: Isa Flores. Assessoria de imprensa: Mada Pereira.

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